El Niño e La Niña: o que são e por que mudam o clima do Brasil inteiro
Todo ano, quando o noticiário fala em seca extrema em um estado e enchente histórica em outro, alguém cita El Niño ou La Niña como culpado. O fenômeno é real e mensurável, mas a explicação costuma parar por aí, sem dizer o porquê nem o que muda concretamente na vida de quem mora em cada região.
Não é sobre o vento, é sobre a água
El Niño e La Niña são os nomes das duas fases de um mesmo padrão climático: o aquecimento (El Niño) ou o resfriamento (La Niña) anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, na região equatorial, próxima à costa oeste da América do Sul.
Esse padrão tem nome técnico oficial, ENOS (El Niño-Oscilação Sul), e é monitorado continuamente por boias oceânicas, satélites e estações meteorológicas, porque a temperatura da água nessa faixa específica do oceano influencia a circulação atmosférica do planeta inteiro, não só da América do Sul. É por isso que anos de El Niño forte também afetam o clima na Ásia, na Austrália e na África, com padrões diferentes em cada continente.
Como o fenômeno é medido
Cientistas acompanham o chamado Índice Oceânico Niño (ONI), que mede o desvio da temperatura da superfície do Pacífico em relação à média histórica daquela região. Quando esse desvio fica acima de 0,5°C por pelo menos 5 meses seguidos, caracteriza-se El Niño. Quando fica abaixo de -0,5°C pelo mesmo período, caracteriza-se La Niña. Entre esses valores, o período é classificado como neutro, sem a influência marcante de nenhum dos dois fenômenos.
A intensidade também é classificada: eventos fracos (entre 0,5°C e 0,9°C), moderados (entre 1,0°C e 1,4°C) e fortes (acima de 1,5°C). Quanto mais forte o desvio, mais previsível e intenso costuma ser o efeito no clima regional.
O que muda no Brasil em cada fase
Em anos de El Niño, o padrão mais comum observado historicamente é:
- Chuva acima da média no Sul do país, com risco maior de enchentes no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná
- Seca mais intensa no Norte e parte do Nordeste, afetando diretamente o nível dos rios amazônicos e a navegação fluvial
- Temperaturas mais altas que a média no Centro-Oeste e Sudeste durante o inverno
Em anos de La Niña, o padrão costuma inverter:
- Estiagem mais severa no Sul, com impacto direto na agricultura, especialmente na safra de soja e milho
- Chuvas mais regulares, às vezes acima da média, no Norte e Nordeste
- Temporada de chuvas mais intensa no Sudeste durante o verão
Esses são padrões estatísticos baseados em décadas de observação, não uma regra fixa que se repete identicamente todo ano: cada evento tem intensidade e duração diferentes, e outros fatores regionais, como o próprio desmatamento na Amazônia e as mudanças climáticas de longo prazo, também interferem no resultado final observado.
O caso da seca amazônica de 2023-2024
Um exemplo recente e bem documentado: a seca histórica que atingiu a Amazônia em 2023 e se estendeu até 2024 coincidiu com um dos El Niños mais fortes já registrados, somado a temperaturas recordes no Atlântico Norte. O resultado foi o rio Negro atingindo o nível mais baixo desde o início das medições, em 1902, afetando diretamente o abastecimento e o transporte de dezenas de comunidades ribeirinhas no Amazonas.
Esse caso ilustra como o ENOS não age sozinho: ele potencializa ou atenua tendências que já existem, e quando se soma a outros fatores (aquecimento global, desmatamento, correntes oceânicas do Atlântico), os extremos ficam ainda mais extremos.
Por que isso importa pra quem não trabalha com clima
Setores inteiros da economia planejam a safra, o nível dos reservatórios de hidrelétricas e até o preço de alimentos com base na previsão de El Niño ou La Niña do ano. Se você mora perto de rio, trabalha com agricultura, pesca ou depende de transporte fluvial, acompanhar os boletins mensais do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e da NOAA americana é mais útil do que esperar a manchete do jornal quando o problema já começou.
Empresas de logística, energia e agronegócio no Brasil já incorporam essas previsões no planejamento anual, ajustando rotas, estoques e contratos futuros com meses de antecedência.
Como acompanhar as previsões
O INPE publica boletins mensais gratuitos com a evolução do ENOS e sua previsão pros próximos meses no site do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC). A NOAA também disponibiliza atualizações mensais em inglês, com projeções que costumam antecipar tendências com 3 a 6 meses de antecedência.
Resumindo
El Niño esquenta o Pacífico e tende a trazer seca pro Norte e chuva pro Sul do Brasil. La Niña esfria o Pacífico e costuma inverter esse padrão. Nenhum dos dois é bom ou ruim por natureza: cada região sente o efeito de um jeito diferente, e a intensidade de cada evento varia bastante de um ano pro outro.
Escrito por
Fabricia Rio BrancoEngenheira ambiental, CEO da FRTB Consultoria Ambiental e mais de 12 anos de experiência com licenciamento, gestão ambiental e energia solar. Saiba mais
Conectar no LinkedInReceba os próximos posts por e-mail
Sem spam. Só conteúdo novo sobre clima, energia solar e sustentabilidade, direto na sua caixa de entrada.